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Francisco Haas
Presidente 2010-11

Homenagem ao dia dos Pais



 Lourdes Novaes

Vicente Cascione: PAI (dedicado aos pais de verdade, biológicos ou não, que ainda vivem ou já partiram.Deuses íntimos e bons, que Deus os abençoe)

PAI (dedicado aos pais de verdade, biológicos ou não, que ainda vivem ou já partiram.Deuses íntimos e bons, que Deus os abençoe)
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No começo da noite eu esperava meu pai surgir na virada da esquina. Ele caminhava até o portão de minha casa, e estendia a mão incomum ao beijo do filho.
-“A bênção, pai”.
-“Deus te abençoe”.
Nesses regressos ao lar, no fim de cada jornada, eu tinha uma vaga certeza de que meu pai era um deus íntimo a entrar em sua morada, e de que ele voltaria sempre, por toda a vida.
Passou quase a não beijar a face dos filhos quando já se esboçavam, neles, os primeiros sinais de uma adolescência viril. Em instantes raros, inclinava seu rosto em colisão com o meu, e assim consumava-se o abrupto beijo paterno, que dissimulava seu doce sentimento, a imensa ternura contida dentro de seu peito.
Há exatos 40 anos, numa tarde de um sábado sem luz, antes de me dirigir ao aeroporto para uma viagem a Madri, onde haveria um encontro entre estudiosos de criminologia, fui despedir-me de meu pai.
“Meu filho, eu não queria que você fosse...”
“Pai, em uma semana estou de volta, não me demoro”.
Tomou meu rosto em suas mãos, e me beijou a fronte, ternamente. Não se fez arredio, como costumava ser, quando lhe retribuí o carinho, com o mesmo gesto. Ao me voltar para seguir em direção à porta, ele me chamou e, repetindo o que tinha feito antes, beijou-me novamente a fronte.
Com um travo inevitável na garganta, e lágrimas contidas para que ele não as notasse, tentei partir, mas, não consegui evitar que, pela terceira vez, ele deixasse em mim a marca indelével de seu beijo.
“Que é isso, pai ? Está ficando sentimental como se estivesse ficando velho?”
Não houve resposta, nem olhei para trás ao abreviar meu passo tendo a face banhada pelo mar de minhas lágrimas, emergentes de uma alma angustiada imersa em grave pressentimento.
As mesmas “longas espirais metálicas” de uma chamada telefônica que um dia chegaram a Vinícius, em Los Angeles, com a notícia da morte de Clodoaldo Moraes, pai do poeta, levaram a Madri a voz de meu irmão, avisando-me de que já não havia meu pai.
Naquele sábado em que me despedi dele, tinham-se exaurido, na fronte de seu filho, os beijos tantos e plenos de adeus.
Reagi como um tigre ferido de morte, naquele quarto restrito de um tosco hotel de Madri, e esmurrei o espelho de um guarda-roupa antigo, e sobre os cacos caminhei até a mesa com o abajur, e meus pés e minhas mãos obedeciam à ira de meus rugidos e soluços.
Então, abriu-se subitamente a porta do quarto, e um pequeno homem acompanhado de um gigante, apareceram: -“O que é isso?” gritou-me energicamente o homem pequenino - que depois eu soube ser o gerente do hotel.
“-Meu pai morreu!”, urrei, pronto a lançar-me alucinado contra ambos.
“Pois então, pode quebrar tudo !” - disse-me o espanhol - em cuja diminuta figura humana não cabia a vastidão do seu sentimento - enquanto fazia um sinal para o gigante comovido. Saíram os dois, solidários, como dois pais ou como dois filhos tristes, deixando ali, na reclusão de sua dor, um moço de 28 anos, cujo deus mais íntimo tinha partido para sempre.
Então, meu pranto tornou-se calmo, e uma saudade infinita trouxe-me todas as lembranças, imagens, momentos, a vida inteira com meu pai, e trouxe essa ausência, essa falta que acompanha e flutua no amor deste filho que, num dia ou noutro, aflito e sem norte, ainda sente o impulso de perguntar: -“ Pai, neste caso, me diga: o que é que eu faço ?”...
Hoje, esta crônica é dedicada aos pais de verdade, biológicos ou não, que ainda vivem ou já partiram. Deuses íntimos e bons, que Deus os abençoe.








 
 

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